Samantha Bruna
“É difícil saber onde começa e onde acaba a representação de um sentimento.”
(Fala de Ana em Romance)
Diálogos reflexivos e bem fundamentados recheiam, mais uma vez, o trabalho de Guel Arraes. Em parceria com Jorge Furtado, o diretor, responsável por três dos filmes de maior sucesso no Brasil: “Lisbela e o prisioneiro”(2003), “Caramuru – A invenção do Brasil”(2001) e “O auto da compadecida”(2000), nos oferece mais uma obra-prima do cinema brasileiro: o filme Romance (2008).
Utilizando como pano de fundo o denso romance entre Pedro – um diretor-ator de peça teatral (Wagner Moura) e Ana – uma atriz (Letícia Sabatella) e um elenco cuidadosamente selecionado (Marco Nanini, José Wilker e Andréa Beltrão), o roteiro de Romance possui as características da nova geração de filmes brasileiros. Geração esta que tem conseguido consolidar-se no cenário mundial sem utilizar a apelação sexual característica dos filmes criados antes dela.
Através de uma preocupação notável com a elaboração dos diálogos, o filme extrapola os limites cinematográficos e traz para o expectador questionamentos que desvelam as estruturas teatral e televisiva, tão familiares e, ao mesmo tempo, tão além da percepção de milhares de pessoas que desconhecem a dinâmica por trás das telas e, principalmente, por trás das cortinas.
Na trama, Pedro é encarregado de fazer uma adaptação para a televisão da peça medieval Tristão e Isolda que ele representa com Ana na primeira parte do filme. A grande “sacada” presente no roteiro ocorre na segunda parte do filme, através da reorganização linguística dos diálogos da peça, realizada pelo personagem para transformar o romance medieval em um romance vivido há cem anos, no sertão da Paraíba. Pedro o faz adaptando a linguagem da história clássica, supostamente ao alcance de pessoas com certo grau cultural,, para uma linguagem que alcance outras realidades sociais, considerando a perspectiva interacional desta mesma linguagem diante dos diferentes contextos.
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