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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Conversa de viajantes



Stanislaw Ponte Preta
É muito interessante a mania que têm certas pessoas de comentar episódios que viveram em viagens, com descrições de lugares e coisas, na base de "imagine você que..." Muito interessante também é o ar superior que cavalheiros, menos providos de espírito pouquinha coisa, costumam ostentar depois que estiveram na Europa ou nos Estados Unidos (antigamente até Buenos Aires dava direito a empáfia). Aliás, em relação a viajantes, ocorrem episódios que, contando, ninguém acredita.
O camarada que tinha acabado de chegar de Paris e — por sinal - com certa humildade, estava sentado numa poltrona, durante a festinha, quando a dona da casa veio apresentá-lo a um cavalheiro gordote, de bigodinho empinado, que logo se sentou a seu lado e começou a "boquejar" (como diz o Grande Otelo):
— Quer dizer que está vindo de Paris, hem? — arriscou.
O que tinha vindo fez um ar modesto: — Eu!
— Naturalmente o amigo não se furtou ao prazer de ir visitar o Palácio de Versalhes.
— Não. Não estive em Versalhes. Era muito longe do hotel onde me hospedei.
— Mas o amigo cometeu a temeridade de não ficar no Plaza Athénée?

O que não ficara no Plaza Athénée deu uma desculpa, explicou que o seu hotel fora reservado pela Cia. onde trabalha e, por isso, não tivera vez na escolha.
— Bem — concordou o gordinho —, o Plaza realmente é um pouco caro, mas é muito central e há outros hotéis mais modestos que ficam perto do Plaza. — E depois de acender um cigarro, lascou:
— Passeou pelo Bois?
— Passei pelo Bois uma vez, de táxi.
— Mas o amigo vai me desculpar a franqueza; o amigo bobeou. Não há nada mais lindo do que um passeio a pé pelo Bois de Boulogne, ao cair da tarde. E não há nada mais parisiense também.
— É... eu já tinha ouvido falar nisso. Mas havia outras coisas a fazer.
— Claro... claro... Há coisas mais importantes, principalmente no setor das artes — e sem tomar o menor fôlego: — Visitou o Louvre?...
— Visitei.
— Viu a "Gioconda"?
Não. O recém-chegado não tinha visto a "Gioconda". No dia em que esteve no Louvre, a "Gioconda" não estava em exposição.
— Mas o senhor prevaricou — disse o gordinho, quase zangado. — A "Gioconda" só está em exposição às 5h aos  sábados e ir ao Louvre noutros dias é negar a si mesmo uma comunhão maior com as artes.
Passou uma senhora, cumprimentou o ex-viajante e, mal ela foi em frente, nova pergunta do cara:
— E a comida de Paris, hem amigo? Você jantava naqueles bistrozinhos de Saint-Germain? Ou preferia os restaurantes típicos de Montmartre? Há um bistrô que fica numa transversal da Rue de...
Mas não pôde acabar de esclarecer qual era a rua, porque o interrogado foi logo afirmando que jantara quase sempre no hotel. E sua paciência se esgotou quando o chato quis saber que tal achara as mulheres do Lido.
— Eu não fui ao Lido também. O senhor compreende. Eu estive em Paris a serviço e sou um homem de poucas posses. Quase não tinha tempo para me distrair. De mais a mais, lá é tudo muito caro.
— Caríssimo — confirmou o gordinho, sem se mancar.
— O Sr., naturalmente, esteve lá a passeio e pôde fazer essas coisas todas — aventou, como quem se desculpa.
Foi aí que o gordinho botou a mãozinha rechonchuda sobre o peito e exclamou: — Eu??? Mas eu nunca estive em Paris!

Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto). O MELHOR DE STANISLAW: Crônicas Escolhidas. 2. ed.  Rio - 1979 - Livraria José Olympio- Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR.

Lixo



Luis Fernando Veríssimo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam...
— Bom dia...
— Bom dia.
— A senhora é do 610.
— E o senhor do 612.
— É.
— Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
— Pois é...
— Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
— O meu quê?
— O seu lixo.
— Ah...
— Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
— Na verdade sou só eu.
— Mmmm. Notei também que o senhor usa muita comida em lata.
— É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
— Entendo.
— A senhora também...
— Me chame de você.
— Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
— É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às vezes sobra...
— A senhora... Você não tem família?
— Tenho, mas não aqui.
— No Espírito Santo.
— Como é que você sabe?
— Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
— É. Mamãe escreve todas as semanas.
— Ela é professora?
— Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
— Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
— O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
— Pois é...
— No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
— É.
— Más notícias?
— Meu pai. Morreu.
— Sinto muito.
— Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
— Foi por isso que você recomeçou a fumar?
— Como é que você sabe?
— De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
— É verdade. Mas consegui parar outra vez.
— Eu, graças a Deus, nunca fumei.
— Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
— Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
— Você brigou com o namorado, certo?
— Isso você também descobriu no lixo?
— Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
— E, chorei bastante. Mas já passou.
— Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
— É que eu estou com um pouco de coriza.
— Ah.
— Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
— É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
— Namorada?
— Não.
— Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
— Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
— Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
— Você já está analisando o meu lixo!
— Não posso negar que o seu lixo me interessou.
— Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
— Não! Você viu meus poemas?
— Vi e gostei muito.
— Mas são muito ruins!
— Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado.
Eles só estavam dobrados.
— Se eu soubesse que você ia ler...
— Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando.
Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
— Acho que não. Lixo é domínio público.
 Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público.
O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros.
 O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
— Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
— Ontem, no seu lixo..
— O quê?
— Me enganei, ou eram cascas de camarão?
— Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
— Eu adoro camarão.
— Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
— Jantar juntos?
— É.
— Não quero dar trabalho.
— Trabalho nenhum.
— Vai sujar a sua cozinha.
— Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
— No seu lixo ou no meu?
Texto extraído do livro “O Analista de Bagé”, L&PM Editores – Porto Alegre, 1981, pág. 83.

O casamento



Luis Fernando Verissimo

— Eu quero ter um casamento tradicional, papai.
— Sim, minha filha.
— Exatamente como você!
— Ótimo.
— Que música tocaram no casamento de vocês?
— Não tenho certeza, mas acho que era Mendelssohn. Ou Mendelssohn é o da Marcha Fúnebre? Não, era Mendelssohn mesmo.
— Mendelssohn, Mendelssohn...
Acho que não conheço. Canta alguma coisa dele aí.
— Ah, não posso, minha filha. Era o que o órgão tocava em todos os casamentos, no meu tempo.
— O nosso não vai ter órgão, é claro.
— Ah, não?
— Não. Um amigo do Varum tem um sintetizador eletrônico e ele vai tocar na cerimônia.
O Padre Tuco já deixou. Só que esse Mendelssohn, não sei, não...
— É, acho que no sintetizador não fica bem...
— Quem sabe alguma coisa do Queen...
— Quem?
— O Queen.
— Não é a Queen?
— Não. O Queen. E o nome de um conjunto, papai.
— Ah, certo. O Queen. No sintetizador.
— Acho que vai ser o maior barato!
— Só o sintetizador ou...
— Não. Claro que precisa ter uma guitarra elétrica, um baixo elétrico...
— Claro. Quer dizer, tudo bem tradicional.
— Isso.
*
— Eu sei que não é da minha conta. Afinal, eu sou só o pai da noiva.
Um nada. Na recepção vão me confundir com um garçom.
Se ainda me derem gorjeta, tudo bem. Mas alguém pode me dizer por que chamam o nosso futuro genro de Varum?
— Eu sabia...
— O quê?
— Que você já ia começar a implicar com ele.
— Eu não estou implicando. Eu gosto dele. Eu até o beijaria na testa se ele algum dia tirasse aquele capacete de motoqueiro.
— Eles nem casaram e você já está implicando.
— Mas que implicância? É um ótimo rapaz. Tem uma boa cabeça.
Pelo menos eu imagino que seja cabeça o que ele tem debaixo do capacete.
— É um belo rapaz.
— E eu não sei? Há quase um ano que ele frequenta a nossa casa diariamente.
É como se fosse um filho. Eu às vezes fico esperando que ele me peça uma mesada. Um belo rapaz. Mas por que Varum?
— É o apelido e pronto.
— Ah, então é isso. Você explicou tudo. Obrigado.
— Quanto mais se aproxima o dia do casamento, mais intratável você fica.
— Desculpe. Eu sou apenas o pai. Um inseto. Me esmigalha. Eu mereço.

*
— Aí xará!
— Oi, Varum, como vai? A sua noiva está se arrumando. Ela já desce.
 Senta aí um pouquinho. Tira o capacete...
— Essa noivinha...
— Vocês vão ao cinema?
— Ela não lhe disse? Nós vamos acampar.
— Acampar? Só vocês dois?
— É. Qual é o galho?
— Não. É que... Sei lá.
— Já sei o que você tá pensando, cara. Saquei.
— É! Você sabe como é...
— Saquei. Você está pensando que só nós dois, no meio do mato, pode pintar um lance.
— No mínimo isso. Um lance. Até dois.
— Mas qualé, xará. Não tem disso não. Está em falta. Oi, gatona!
— Oi, Varum. O que é que você e papai estão conversando?
— Não, o velho aí tá preocupado que nós dois, acampados pode  pintar um lance. Eu já disse que não tem disso.
— Ô, papai. Não tem perigo nenhum. Nem cobra. E qualquer coisa o Varum me defende. Eu Jane, ele Tarzan.
— Só não dou o meu grito para proteger os cristais.
— Vamos?
— Vamlá?
— Mas... Vocês vão acampar de motocicleta?
— De motoca, cara. Vá-rum, vá-rum.
*
— Descobri por que ele se chama Varum.
— O quê? Você quer alguma coisa?
— Disse que descobri por que ele se chama Varum.
— Você me acordou só para dizer isto?
— Você estava dormindo?
— É o que eu costumo fazer às três da manhã, todos os dias. Você não dormiu?
— Ainda não. Sabe como é que ele chama ela? Gatona.
Por um estranho processo de degeneração genética, eu sou pai de uma gatona.
Varum e Gatona, a dupla dinâmica, está neste momento, no meio do mato.
— Então é isso que está preocupando você?
— E não é para preocupar? Você também não devia estar dormindo.
A gatona é sua também.
— Mas não tem perigo nenhum!
— Como, não tem perigo? Um homem e uma mulher, dentro de uma tenda, no meio do mato?
— O que é que pode acontecer?
— Se você já esqueceu, é melhor ir dormir mesmo.
— Não tem perigo nenhum. O máximo que pode acontecer é entrar um sapo na tenda.
— Ou você está falando em linguagem figurada ou eu é que estou ficando louco.
— Vai dormir.
— Gatona. Minha própria filha...
— Você também tinha um apelido pra mim, durante o nosso noivado.
— Eu prefiro não ouvir.
— Você me chamava de Formosura. Pensando bem, você também tinha um apelido.
— Por favor. Reminiscências não. Comi faz pouco.
— Kid Gordini. Você não se lembra? Você e o seu Gordini envenenado.
— Tão envenenado que morreu, nas minhas mãos. Um dia levei num mecânico e disse que a bateria estava ruim.
Ele disse que a bateria estava boa, o resto do carro é que tinha que ser trocado.
— Viu só? E você se queixa do Varum. Kid Gordini!
— Mas eu nunca levei você para o mato no meu Gordini.
— Não levou porque meu pai matava você.
— Hmmmm.
— “Hmmmm” o quê?
— Você me deu uma ideia. Assassinato...
— Não seja bobo.
— Um golpe bem aplicado... Na cabeça não porque ela está sempre bem protegida. Sim. Kid Gordini ataca outra vez...
— O que você tem é ciúme.
Nisso tudo, tem uma coisa que me preocupa acima de tudo que é o que me tira o sono.
— O quê?
— Será que ele tira o capacete para dormir?
*
— Bom dia.
— Bom dia.
— Eu sou o pai da noiva. Da Maria Helena.
— Maria Helena... Ah, a Gatona!
— Essa.
— Que prazer. Alguma dúvida sobre a cerimônia?
— Não, Padre Osni. E que...
— Pode me chamar de Tuco. E como me chamam.
— Não, Padre Tuco. E que a Ga... A Maria Helena me disse que ela pretende entrar dançando na igreja. O conjunto toca um rock e a noiva entra dançando, é isso?
— É. Um rock suave. Não é rock pauleira.
— Ah, não é rock pauleira. Sei. Bom, isto muda tudo.
— Muitos jovens estão fazendo isto. A noiva entra dançando e na saída os dois saem dançando. O senhor sabe, a Igreja hoje está diferente.
 É isto que está atraindo os jovens de volta à Igreja. Temos que evoluir com os tempos.
— Claro. Mas, Padre Osni...
— Tuco.
— Padre Tuco, tem uma coisa. O pai da noiva também tem que dançar?
— Bom, isto depende do senhor. O senhor dança?
— Agora não, obrigado. Quer dizer, dançava. Até ganhei concurso de chá-chá-chá. Acho que você ainda não era nascido. Mas estou meio fora de forma e...
— Ensaie, ensaie.
— Certo.
— Peça para a Gatona ensaiar com o senhor.
— Claro.
— Não é rock pauleira.
— Certo. Um roquezinho suave. Quem sabe um chá-chá-chá? Não. Esquece, esquece.
*
— Você está nervoso, papai?
— Um pouco. E se a gente adiasse o casamento? Eu preciso de uma semana a mais de ensaio. Só uma semana.
— Eu estou bonita?
— Linda. Quando estiver pronta vai ficar uma beleza.
— Mas eu estou pronta.
— Você vai se casar assim?
— Você não gosta?
— É... diferente, né? Essa coroa de flores, os pés descalços...
— Não é um barato?
*
— Um brinde, xará!
— Um brinde, Varum.
— Você estava um estouro entrando naquela igreja.  Parecia um bailarino profissional.
— Pois é. Improvisei uns passos. Acho que me sai bem.
— Muito bem!
— Não sei se você sabe que eu fui o rei do chá-chá-chá.
— Do quê?
— Chá-chá-chá. Uma dança que havia. Você ainda não era nascido.
— Bota tempo nisso.
— Eu tinha um Gordini envenenado. Tão envenenado que morreu. Um dia levei no...
— Tinha um quê?
— Gordini. Você sabe. Um carro. Varum, varum.
— Ah.
— Esquece.
— Um brinde ao sogro bailarino.
— Um brinde. Eu sei que vocês vão ser muito felizes.
— O que é que você achou da minha beca, cara?
— Sensacional. Nunca tinha visto um noivo de macacão vermelho, antes. Gostei. Confesso que quando entrei na igreja e vi você lá no altar, de capacete...
— Vacilou.
— Vacilei. Mas aí vi que o Padre Tuco estava de boné e pensei, tudo bem. Temos que evoluir com os tempos. E ataquei meu rock suave.

Texto extraído do livro "O analista de Bagé", L&PM Editores – Porto Alegre, 1981, pág. 13

Em código


                                                                                                                                                                    Fernando Sabino


Fui chamado ao telefone. Era o chefe de escritório de meu irmão:
- Recebi de Belo Horizonte um recado dele para o senhor. É uma mensagem meio esquisita, com vários itens, convém tomar nota: o senhor tem um lápis aí?
- Tenho. Pode começar.
- Então lá vai. Primeiro: minha mãe precisa de uma nora.
- Precisa de quê?
- De uma nora.
- Que história é essa?
- Eu estou dizendo ao senhor que é um recado meio esquisito. Posso continuar?
- Continue.
- Segundo: pobre vive de teimoso. Terceiro: não chora, morena, que eu volto.
- Isso é alguma brincadeira.
- Não é não, estou repetindo o que ele escreveu.
Tem mais. Quarto: sou amarelo, mas não opilado. Tomou nota?
- Mas não opilado - repeti, tomando nota. - Que diabo ele pretende com isso?
- Não sei não, senhor. Mandou transmitir o recado, estou transmitindo.
- Mas você há de concordar comigo que é um recado meio esquisito.
- Foi o que eu preveni ao senhor. E tem mais. Quinto: não sou Colgate, mas ando na boca de muita gente. Sexto: poeira é minha penicilina. Sétimo: carona, só de saia. Oitavo...
- Chega! - protestei, estupefato. - Não vou ficar aqui tomando nota disso, feito idiota.
- Deve ser carta em código ou coisa parecida - e ele vacilou: - Estou dizendo ao senhor que também não entendi, mas enfim... Posso continuar?
- Continua. Falta muito?
- Não, está acabando: são doze. Oitavo: vou, mas volto. Nono: chega à janela, morena. Décimo: quem fala de mim tem mágoa. Décimo primeiro: não sou pipoca, mas também dou meus pulinhos.
- Não tem dúvida, ficou maluco.
- Maluco não digo, mas como o senhor mesmo disse, a gente até fica com ar meio idiota... Está acabando, só falta um. Décimo segundo: Deus, eu e o Rocha:
- Que Rocha?
- Não sei: é capaz de ser a assinatura.
- Meu irmão não se chama Rocha, essa é boa!
- É, mas foi ele que mandou, isso foi.
Desliguei, atônito, fui até refrescar o rosto com água, para poder pensar melhor. Só então me lembrei: haviam-me encomendado uma crônica sobre essas frases que os motoristas costumam pintar, como lema, à frente dos caminhões. Meu irmão, que é engenheiro e viaja sempre pelo interior fiscalizando obras, prometera ajudar-me, recolhendo em suas andanças farto e variado material. E ele viajou, o tempo passou, acabei me esquecendo completamente o trato, na suposição de que o mesmo lhe acontecera.
Agora, o material ali estava, era só fazer a crônica. Deus, eu e o Rocha! Tudo explicado: Rocha era o motorista. Deus era Deus mesmo, e eu, o caminhão.