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terça-feira, 19 de junho de 2012

A menina dos fósforos



H.C. Andersen
 
Era véspera de Ano Bom. Fazia um frio intenso; já estava escurecendo e caía neve. Mas a despeito de todo o frio, e da neve, e da noite, que caía rapidamente, uma criança, uma menina, descalça e de cabeça descoberta, vagava pelas ruas. É certo que estava calçada quando saiu de casa; mas as chinelas eram muito grandes, pois que a mãe as usara, e escaparam-lhe dos pezinhos gelados, quando atravessava correndo uma rua, para fugir de dois carros que vinham a toda a brida. Não pôde achar um dos chinelos e o outro apanhou-o um rapazinho, que saiu correndo e declarando que aquilo ia servir de berço aos seus filhos, quando os tivesse. Continuou, pois, a menina a andar, agora com os pés nus e gelados. Levava no avental velhinho uma porção de pacotes de fósforos e tinha na mão uma caixinha: não conseguira vender uma só em todo o dia, e ninguém lhe dera esmola - nem um só vintém.
Assim, morta de fome e frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansaço e o desânimo - a estátua viva da miséria.
Os flocos de neve caíam pesados, sobre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam lá dentro; vagava na rua um cheiro bom de pato assado - era a véspera do Ano Bom - isso sim, não o esquecia ela.
Achou um canto, formado pela saliência de uma casa, e acocorou-se ali, com os pés encolhidos para abrigá-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. Não se animava a voltar para casa, porque não tinha vendido uma única caixinha de fósforos, e não ganhara um vintém; era certo que levaria algumas lambadas. Além disso, lá fazia tanto frio como na rua, pois só havia o abrigo do telhado, e por ele entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas que lhe tinham vedado as enormes frestas.
Tinha as mãozinhas tão geladas... estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles fósforos pequeninos, sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e riscá-lo na parece para acendê-lo... Ritch!... Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!
Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela, quando ela o abrigou com a mão. E era uma vela esquisita, aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de pés e maçanetas de bronze polido. Ardia nela um fogo magnífico, que espalhava suave calor. E a meninazinha ia estendendo os pés enregelados para aquecê-los e... crac! Apagou-se o clarão! Sumiu-se a estufa, tão quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um fósforo apagado na mão. Só via agora a parede escura e fria.
Riscou outro. Onde batia a sua luz, a parede tornava-se transparente como a gaze, e ela via tudo lá dentro da sala. Estava posta a mesa, e sobre a toalha alvíssima via-se, fumegando entre toda aquela porcelana tão fina, um belo pato assado, recheado de maçãs e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo soalho direto à menina que estava com tanta fome, e...
Mas - que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o fósforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria, na noite escura. Riscou outro fósforo, e àquela luz resplandecente, viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Oh! Era muito maior, e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos brilhavam milhares de velinhas; e estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A criança estendeu os braços, diante de tantos esplendores, e então, então... apagou-se o fósforo. Todas as luzinhas de natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrelas, que cintilavam no céu. Mas uma caiu lá de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.
- Morreu alguém - disse a criança.
Porque sua avó, a única pessoa que a amara no mundo, e que estava morta, lhe dizia sempre que quando uma estrela desce, é que uma alma subiu para o céu.
Agora ela acedeu outro fósforo; e desta vez foi a avó que lhe apareceu, a sua boa vovó, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.
- Vovó! - gritou a pobre menina - Leva-me contigo... Já sei que quando o fósforo se apagar, tu vais desaparecer, como se sumiram a estufa quente, e o rico pato assado, e a linda árvore de Natal!
E a coitadinha pôs-se a riscar na parede todos os fósforos da caixa, para que a avó não se desvanecesse. E eles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vovó tão alta, nem tão bela! E ela tomou a neta nos braços, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe... longe da terra, para um lugar lá em cima onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo, porque elas estavam agora com Deus.
A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de beatitude. Morta. Morta de frio, na última noite do ano velho.
A luz do Ano Bom iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a mão cheia de fósforos queimados.
- Sem dúvida ela quis aquecer-se - diziam.
Mas... ninguém soube das lindas visões, que visões maravilhosas lhe povoaram os últimos momentos, nem em que halo tinha entrado com a avó nas glórias do Ano Novo.

NEGRINHA



Monteiro Lobato

            Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma - "dona de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral", dizia o reverendo. Ótima, a dona Inácia. Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia.
Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa: - Quem é a peste que está chorando aí? Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero. - Cale a boca, diabo! No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...
            Assim cresceu Negrinha - magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés, Não compreendia a ideia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora: castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta. - Sentadinha aí, e bico, hein? Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas. - Braços cruzados, já, diabo! Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas - um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.
Puseram-na depois a fazer croché, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim. Que ideia faria de, si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim - por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida - nem esse de personalizar a peste...
            O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta...
            A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a policia! "Qualquer coisinha": uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!” ... O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo: - Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!... Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma - divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para "doer fino" nada melhor! Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo.
 Foi assim com aquela história do ovo quente. Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha coisa de rir - um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta - atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias. "Peste?" Espere aí! Você vai ver quem é peste - e foi contar o caso à patroa. Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se. - Eu curo ela!. - disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias. - Traga um ovo. Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou: - Venha cá! Negrinha aproximou-se. - Abra a boca! Negrinha abriu a boca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água "pulando" o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois: - Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste? E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava. - Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária - mas que trabalheira me dá! - A caridade é a mais bela das virtudes cristãs, minha senhora murmurou o padre. - Sim, mas cansa... - Quem dá aos pobres empresta a Deus. A boa senhora suspirou resignadamente. Inda é o que vale...
Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas. Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu - alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo. Mas abriu a boca: a sinhá ría-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado - e findo o seu inferno - e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos. Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: "já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga?" Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos - a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre. - Quem é, titia? - perguntou uma das meninas, curiosa. - Quem há de ser? - disse a tia, num suspiro de vítima. - Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfa. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora. - Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! - refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.
Chegaram as malas e logo: - Meus brinquedos! - reclamam as duas meninas. Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos. Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava "mamã"... que dormia... Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial. - É feita?... - perguntou, extasiada. E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão, o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la. As meninas admiraram-se daquilo.
- Nunca viu boneca?
- Boneca? - repetiu Negrinha.
- Chama-se Boneca? Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.
- Como é boba - disseram.
- E você como se chama? - Negrinha.
As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca: - Pegue! Negrinha olhou para os lados, ressabiada, com o coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena. Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se. Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos. Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo - estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida: Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein? Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.
Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha... Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma - na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca - preparatório -, e o momento dos filhos - definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.
            Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa - e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava! Assim foi - e essa consciência a matou.
Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada. Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida. Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos. Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, enverienara-a. Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma. Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e, anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça - abraçada, rodopiada. Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta. Mas, imóvel, sem rufar as asas. Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou... E tudo se esvaiu em trevas. Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira - uma miséria, trinta quilos mal pesados ... E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas. - "Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?" Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia. - "Como era boa para um cocre!...

O ANJO DA GUARDA



Rubem Fonseca

          A casa tinha vários quartos. Perguntei em qual deles eu ia dormir. Ela me levou para um quarto que ficava perto do dela. Sentei na cama, testei o colchão. Não dá, é muito mole, vai acabar de vez com as minhas costas. Testei os colchões de todos os quartos e acabei encontrando um duro.
─  Esse aqui está bom, você tem uma camisa que sirva em mim? Esqueci de trazer uma roupa para dormir. 
A mulher voltou logo em seguida com uma camisa de malha branca. 
─  Essa é a maior que eu tenho. Usei uma vez, tem importância?
Agradeci e a mulher me deu boa-noite. Vesti a camisa, senti o cheiro do tecido, uma mistura de pele limpa e perfume. Procurei uma posição para dormir. As costas doíam. Eu tinha uma porção de ossos quebrados e mal emendados espalhados pelo corpo. A mulher bateu tão de leve na porta que quase não ouvi.
­­­­­­           ─ Sim?
─ Sou eu. 
─ Queria falar com você.
─ Um momento.
Vesti a calça e abri a porta. Ela vestia um penhoar e uma mulher de penhoar sempre me lembra minha mãe. Aliás a única coisa que lembro da minha mãe é o penhoar.
─ Você está muito longe, não me sinto protegida, não consigo dormir, você não pode ir para aquele quarto ao lado do meu? A gente leva o colchão duro dessa cama e troca pelo outro.
 Levei o meu colchão duro para o quarto ao lado do dela. Sentei na cama.
─ Acho que agora está bom. Dá para dormir, boa noite.
─ Boa noite.
Não aguentei dez minutos deitado. A dor na coluna aumentou. Saí da cama, sentei-me numa poltrona que havia no quarto. Outra batida na porta.
– O que é?
Ouvi um barulho no jardim, ela sussurrou através da porta, acho que tem alguém no jardim. Vesti a calça. Abri a porta. Ela continuava de penhoar.
– Isso deve ser impressão sua. Você anda muito nervosa. Em que lugar do jardim?
– No bosque das magnólias. Lá não tem luz e tive a impressão de que vi uma luz apagar e acender.
– Você tem uma lanterna?
– Tenho.
A mulher me deu a lanterna.
– Toma cuidado. Eu já lhe contei as coisas horríveis que têm acontecido comigo, não contei? Você devia ir para o seu apartamento na cidade.
– Lá é pior. Eu já lhe contei. Tive que desligar o telefone por causa dos trotes no meio da noite, me ameaçando. E tem gente me seguindo pelas ruas. Aqui pelo menos as janelas estão todas gradeadas e as portas são de ferro. Leva o revólver.
– É melhor o revólver ficar com você. Fecha a porta. E não fica olhando lá pra fora pela janela.
Era um sítio grande. Um gramado com canteiros de flores rodeava a casa. No meio do gramado, uma piscina. Nos fundos, a casa do caseiro, a horta. O resto do sítio era cheio de bosques com árvores de grande porte, que tornavam a noite ainda mais escura. Havia bancos de pedra espalhados pelo meio das árvores. Sentei em um deles, no bosque de magnólias. Esperei, a lanterna acesa sobre o banco. Sônia surgiu silenciosamente de dentro do escuro, sentou-se ao meu lado no banco de pedra.
– Você deixou o seu revólver num lugar onde ela visse?
– Deixei na mão dela. Estou seguindo o plano de vocês.
– Ouve esse barulho, disse Sônia ligando um gravador que tirou da bolsa. Parecia um gemido, de alguém morrendo. Não parece um fantasma?
A sorte de vocês é que aqui não tem cachorro.
– Tinha. Nós o envenenamos. O Jorge envenenou.
– Quando é que ela vai usar o revólver?
– Ela está morrendo de medo, vamos esperar mais um pouco. Quem é esse Jorge?
– Se você não sabe eu não vou dizer.
– Por que vocês querem que a mulher morra?
– Isso não é da sua conta.
Vou voltar para a casa. Desliga esses gemidos. Por hoje chega.
–Não se esqueça do nosso acordo, disse Sônia. Dentro de mais três dias isso tem de ser resolvido. Se ela continuar indecisa, você dá o tiro na cabeça dela.
Voltei para a casa. A mulher abriu a porta com o meu revólver na mão. Tremia, com os olhos esbugalhados.
– Que barulho era aquele?
–Nada.
– Como nada? Eu ouvi. Você pensa que estou maluca?
– Não.
– Eu sei, eu sei que você pensa que estou maluca.
A mulher apontou o revólver para mim. Diga a verdade. Você acha que eu sou maluca. Os caseiros achavam que eu era maluca e foram embora de noite, sem me dizer nada. Eu acabei de ouvir um gemido forte, o barulho de uma alma penada, como a minha, e você me diz que não era nada? E este revólver que não tem balas? É assim que você ia me defender? Com um revólver sem balas?
– Como você sabe que não tem balas?
– Dei seis tiros na minha cabeça e não aconteceu nada.
– Esqueci de colocar as balas. Não sei como isso foi acontecer, sou muito cuidadoso.
– Você tirou as balas porque pensou que eu era maluca e ia dar um tiro na cabeça.
–Estou aqui para proteger você. Vai dormir. Amanhã de manhã a gente conversa.
– Não fala assim comigo. Estou muito nervosa. Dorme no meu quarto comigo.
– Está bem.
A mulher deitou-se sem tirar o penhoar, cobriu-se com um lençol. Sentei na poltrona do quarto. Todos os quartos tinham poltronas e banheiro privativo. Da cama ela olhava para mim, suspirava como quem quer chorar.
– Vem aqui, segurar na minha mão.
Segurei na mão dela.
– Você tem a mão grande. Você era trabalhador braçal?
– Não.
Você foi sempre acompanhante de pessoas doentes?
–Quando eu era jovem passei uns dois anos empurrando a cadeira de rodas de um velho. Foi a melhor época da minha vida, eu gostava de ler, ele tinha milhares de livros e eu passava o dia lendo.
– Nunca vi você lendo aqui.
– Ainda não tive tempo e os seus livros não me atraem.
– Sinto muito. E depois de trabalhar na casa cheia de livros que te atraíam?
– Depois tomei conta de outro velho.
– Ele era doente mental?
– Não. Uma doença de velhice (O sujeito se matou, com a minha ajuda, mas isso eu não diria a ela. Vê se consegue dormir um pouco.
– Eu sou maluca?
– Não. Está apenas muito nervosa.
A mulher dormiu. Larguei a mão dela. Fui para a poltrona e fiquei a noite inteira acordado, pensando, sentindo o cheiro da camisa dela no meu corpo e olhando para a mulher enquanto ela dormia. O homem primitivo devorava como uma hiena os restos dos cadáveres dos bichos que encontrava e que haviam sido caçados por outros animais. Só se tornou um caçador depois que astutamente inventou suas armas perfurantes. Coloquei as balas no tambor do revólver.
A mulher na cama parecia um cachorro morto em quem era fácil dar pontapés. Não faço perguntas, quando me pedem um serviço. Mas neste caso gostaria de saber quem queria que ela desse um tiro na cabeça. Um marido escroto aterrorizando a mulher histérica para fazer ela se matar e ficar com a grana? Já passei por uma situação mais ou menos assim, numa semana de carnaval.
O dia raiou, os passarinhos começaram a piar e a mulher acordou. Ela sorriu para mim.
Hoje estou me sentindo melhor. Acho que esse pesadelo vai acabar. Vou trabalhar no jardim, você fica perto de mim?
Saí do quarto dela. No meu banheiro, lavei o rosto e escovei os dentes. Fui para o jardim. A mulher tinha um chapéu na cabeça para protegê-la do sol. Pediu para eu acompanhá-la até um quarto de ferramentas que ficava ao lado da garagem. Havia picaretas, pás, um cortador elétrico de grama, uma bomba com implementos para limpar a piscina. Pegou uma tesoura dessas que se usam nos jardins.
Meu jardim é bonito, não é? Eu mesma plantei essas flores, não são bonitas?
Não dou muita importância a flores, mas ouvi com paciência ela dizer os nomes das que cresciam nos canteiros.
– Preciso dar um telefonema.
– O telefone está desligado.
–Vou lá no centro da vila.
–Por favor, não me deixe sozinha.
– Então você vem comigo. Depois você trabalha no jardim.
Pegamos o carro dela. Você gosta de música?  Se você quiser ouvir eu não me incomodo.
Ela colocou um concerto de violino no aparelho do carro.
Não dá uma sensação de paz?
Música de violino me deixa inquieto, mas aguentei sem dizer nada. Chegamos na pracinha da vila. Parei na porta do mercadinho, cheia de sacos de comida de gato e de cachorro.
Ela saltou do carro comigo. Vou fazer compras, cansei de comer congelados.
O homem do mercadinho cumprimentou-a amigavelmente, a mulher tinha aquele sítio havia muitos anos. O homem perguntou se eu era o novo caseiro e a mulher respondeu que eu era um amigo.
Próximo havia uma padaria. Liguei de lá para a Sônia.
Vou fazer o serviço. Mas quero antes ter uma conversa com você e o Jorge. Quero receber o que falta. Hoje à noite, naquele lugar onde nos encontramos ontem.
– O Jorge não vai.
O problema é dele. Se ele não vier conversar comigo, nada feito. Nove horas.
Desliguei o telefone. Voltei ao mercadinho. Peguei a saca cheia de compras e fomos para o carro.
A mulher trabalhou no jardim, depois fez comida para nós. Mas apenas sentou comigo na mesa, não comeu nada. Logo voltou a trabalhar no jardim, enquanto ouvia música, eu o tempo inteiro ao lado dela, sofrendo com aquela música, desejando que aquilo tudo acabasse de uma vez. Quinze minutos antes das nove eu disse para a mulher que ia dar uma olhada no terreno do sítio, que talvez demorasse um pouco.
– Não me deixa sozinha.
Peguei a lanterna. Não vou me afastar muito, não se preocupe. Tranca tudo e só abra a porta para mim. E não fica na janela.
– Por favor...
Não se preocupe.
–Saí, levando o revólver. No quarto de ferramentas peguei duas pás e uma picareta e fui para o bosque de magnólias. Sentei no banco de pedra, a lanterna acesa. Coloquei as pás e a picareta ao lado do banco.
Sônia e Jorge demoraram a aparecer. O homem usava um chapéu que cobria metade do rosto dele.
Apaga essa lanterna. O que você queria comigo?
Eu o reconheci logo. Se você quer ficar vivo neste mundo de merda não pode esquecer nem a cara nem a voz de ninguém. Era o filho do velho Baglioni que eu ajudara a ir para o outro mundo. Fingi que não o reconhecera.
Uma pergunta, apenas. A mulher é sua esposa?
Essa velha? Ela é minha sócia, pirou e está fodendo os negócios. O que você queria comigo?
Receber o que falta.
Antes de você fazer o serviço? Impossível. Trato é trato.
Vou matar a mulher hoje e dar o fora. Como vou receber o que falta?
Você sabe onde encontrar a Sônia. Ela te paga depois.
Acendi a lanterna. Mostrei as pás e a picareta.
Quero que vocês me ajudem a abrir uma cova, se eu for fazer isso sozinho vai levar um tempo enorme. O corpo tem que sumir. Fiz compras com ela no mercadinho da vila e viram a minha cara.
Só faltava essa, disse Jorge.
Sem cova não tem cadáver.
– Está bem, está bem, disse Jorge pegando uma das pás. Eu peguei a outra e a picareta.
Aqui não. Temos que sair do sítio, vamos para a floresta.
Não posso andar muito, estou de sapatos altos, disse Sônia.
–O problema é seu.
Andamos pela floresta, Sônia reclamando que os seus sapatos estavam se estragando.
– Aqui está bom, eu disse.
Sônia se recusou a cavar. Eu e Jorge trabalhamos em silêncio, como os coveiros fazem. Não é fácil abrir uma cova grande, ainda mais num solo duro como aquele. Empapamos de suor as nossas camisas. Jorge suava mais do que eu, mas não tirou o chapéu que escondia o seu rosto.
Jorge largou a pá. Chega, já é suficiente, ele disse.   Continuei com a picareta na mão. Ainda falta uma coisa, eu disse.
Golpeei com força a cabeça de Jorge, usando a ponta da picareta. Ele caiu. Sônia começou a correr, mas deu apenas alguns passos e um grito de medo, não foi bem um grito, foi uma espécie de uivo.
Verifiquei se estavam mesmo mortos, não queria enterrá-los vivos. Trabalhei aprofundando a escavação mais um pouco. Joguei os dois dentro do buraco e cobri com terra. Soquei a terra com a pá e cobri a cova com pedras e galhos de árvore. Naquela floresta só havia passarinhos, sapos, cobras, insetos e outros bichos inocentes. Não iam abrir aquela cova, mas eu não queria correr riscos.
Lavei as pás e a picareta no tanque e levei de volta para o quarto de ferramentas. Bati na porta de ferro da casa.
Sou eu, pode abrir a porta.
A mulher abriu a porta, assustada como sempre. – Você viu alguma coisa?
Não. Nem ouvi nenhum som estranho. Você ouviu?
Não, ela respondeu. Quer tomar um chá? Vou fazer um chá para a gente.
Fiquei no sítio mais uma semana com a mulher, apesar da música. Não há nada mais irritante do que essa música de violino. Todo dia eu ia ver a cova onde aqueles dois estavam apodrecendo, para ver se havia algum cheiro ruim no ar. Nada. No mercadinho da vila indicaram um casal de velhos que foram contratados como caseiros pela mulher. O velho era um homem rijo que trabalhava o dia inteiro no jardim, ele e a minha mãe. Estou brincando, mas gostaria que ela fosse minha mãe. Eu gostava dela. Se tivesse uma mãe assim eu seria um homem diferente, meu destino ia ser outro e eu tomaria conta dela, ia ter alguém para amar.
Ela estava no jardim com o caseiro, mexendo na terra. Tenho que ir embora, eu disse.
Não sei como pagar o que você fez por mim. Fiquei boa. Não tenho mais medo.
– Boa você não está. Mas ninguém mais vai ligar o telefone para você no meio da noite, nem ninguém mais vai te seguir pelas ruas apavorando você. Como posso te pagar? Você deve precisar de dinheiro.
Já recebi o meu pagamento. Mas você pode me levar de carro até a estação de ônibus na cidade. A mulher me levou de carro até a estação.
– Quando você precisar de alguma coisa, me procura.
– Me dá o seu telefone, disse ela.
– Não tenho telefone.
– A Sônia deve saber como encontrar você se eu precisar, não? Ela foi muito boa, indicando você para meu anjo da guarda.
Não respondi. A mulher esperou comigo o ônibus chegar, nós dois dentro do carro ouvindo a música que ela gostava e o violino não me pareceu tão irritante. Peguei o ônibus. Ela me acenou enquanto o ônibus se afastava.


sábado, 16 de junho de 2012

O Assalto



Carlos Drummond de Andrade

A casa luxuosa no Leblon é guardada por um molosso de feia catadura, que dorme de olhos abertos, ou talvez nem durma, de tão vigilante. Por isso, a família vive tranquila, e nunca se teve notícia de assalto à residência tão protegida.
Até a semana passada. Na noite de quinta-feira, um homem conseguiu abrir o pesado portão de ferro e penetrar no jardim. Ia fazer o mesmo com a porta da casa, quando o cachorro, que muito de astúcia o deixara chegar até lá, para ascender-lhe o clarão de esperança e depois arrancar-lhe toda ilusão, avançou contra ele, abocanhando-lhe a perna esquerda. O ladrão quis sacar do revólver, mas não teve tempo para isto. Caindo ao chão, sob as patas do inimigo, suplicou-lhe com os olhos que o deixasse viver, e com a boca prometeu que nunca mais tentaria assaltar aquela casa. Falou em voz baixa, para não despertar os moradores, temendo que se agravasse a situação. O animal pareceu compreender a súplica do ladrão, e deixou-o sair em estado deplorável.
No jardim ficou um pedaço da calça. No dia seguinte, a empregada não entendeu bem por que uma voz, pelo telefone, disse que era da Saúde Pública e indagou se o cão era vacinado. Nesse momento o cão estava junto da doméstica, e abanou o rabo, afirmativamente.

O menino e o padre




Conto regional do Nordeste (autor desconhecido)

Um padre andava pelo sertão, e como estava com muita sede, aproximou-se duma cabana e chamou por alguém de dentro. Veio então lhe atender um menino muito mirrado.
- Bom dia meu filho, você não tem por aí uma aguinha aqui pro padre?
            - Água tem não senhor, aqui só tem um pote cheio de garapa de açúcar! Se o senhor quiser... - disse o menino.
- Serve, vá buscar. - pediu-lhe o padre.
E o menino trouxe a garapa dentro de uma cabaça. O padre bebeu bastante e o menino ofereceu mais. Meio desconfiado, mas como estava com muita sede o padre aceitou. Depois de beber, o padre curioso perguntou ao menino:
- Me diga uma coisa, sua mãe não vai brigar com você por causa dessa garapa?
- Briga não senhor. Ela não quer mais essa garapa, porque tinha uma barata morta dentro do pote.
Surpreso e revoltado, o padre atira a cabaça no chão e esta se quebra em mil pedaços. E furioso ele exclama:
            -Moleque danado, por que não me avisou antes?
O menino olhou desesperado para o padre, e então disse em tom de lamento:
- Agora sim eu vou levar uma surra das grandes; o senhor acaba de quebrar a cabacinha de vovó fazer xixi dentro!

A roupa nova do imperador



Hans Christian Andersen

Um alfaiate pobre, de terras distantes, diz a um determinado rei que poderia fazer uma roupa muito bonita e cara, mas que apenas as pessoas mais inteligentes e astutas poderiam vê-la. O rei, muito vaidoso, gostou da proposta e pediu ao alfaiate que fizesse uma roupa dessas para ele.
O alfaiate recebeu vários baús cheios de riquezas, rolos de linha de ouro, seda e outros materiais raros e exóticos, exigidos por ele para a confecção das roupas. Ele guardou todos os tesouros e ficou em seu tear, fingindo tecer fios invisíveis, que todas as pessoas alegavam ver, para não parecerem estúpidas.
Até que um dia, o rei se cansou de esperar, e ele e seus ministros quiseram ver o progresso do alfaiate. Quando o falso tecelão mostrou a mesa de trabalho vazia, o rei exclamou: "Que lindas vestes! Você fez um trabalho magnífico!", embora não visse nada além de uma simples mesa, pois dizer que nada via seria admitir na frente de seus súditos que não tinha a capacidade necessária para ser rei. Os nobres ao redor soltaram falsos suspiros de admiração pelo trabalho, nenhum deles querendo que achassem que era incompetente ou incapaz. O alfaiate garantiu que as roupas logo estariam completas, e o rei resolveu marcar uma grande parada na cidade para que ele exibisse as vestes especiais. A única pessoa a desmascarar a farsa foi uma criança, que gritou:
-O rei está nu!
O grito é absorvido por todos. O Imperador se encolhe, suspeitando a afirmação é verdadeira, mas se mantém orgulhosamente e continua a procissão.

História de Estagiário (ADAPTADA)


O conto a seguir circula pela internet com autoria desconhecida, senti a necessidade de fazer algumas modificações, retirando palavras de baixo calão, vejamos:




Como estagiário, aprendi milhões de coisas e fui muito bem sucedido nas minhas funções. Juro que não entendo o porquê de me demitirem… Eu tinha várias funções que fazia com excelência, entre elas: tirar xerox: 3.1 segundos por página; passar café; comprar cigarro e pão: 1 minuto e 27 segundos. Ida e volta; fazer jogos na Mega Sena, Dupla-Sena, Loto fácil, Loteria Esportiva…
Eu era muito bom. Mesmo. Fazia tudo certinho, até que peguei uma certa confiança com o pessoal e resolvi fazer uma brincadeirinha inocente.
É impressionante o nível de stress em um ambiente de trabalho. Quis dar uma amenizada na galera, deixar o povo feliz e fui recompensado com uma bela de uma demissão por justa causa. Sacanagem!
Vou contar toda minha rotina desse dia catastrófico:
Era quinta-feira, 26 de março, quando cheguei ao trabalho.
Nesse dia, passei na padaria no meio do caminho. Demonstrando muita proatividade, comprei pão e três Marlboro. Já queria ter na mão sem nem mesmo me pedirem. Quando abri a agência (sim, me deixam com a chave porque o pessoal só começa a chegar lá pelas 11h), já vi uma montanha de folhas para eu xerocar na minha mesa. Xeroquei tudo, fiz café e deixei tudo nos trinques (minha mãe que usa essa gíria rs). Como tinha saído um pouco mais cedo no outro dia, deixaram um recado na minha mesa: “pegar o resultado da mega-sena na lotérica”. Como tinha adiantado tudo, fui buscar o resultado. No meio do caminho, tive a ideia mais genial da minha.
Peguei o resultado do jogo: 01/12/14/16/37/45. E o que fiz? Malandro que sou, peguei uns trocados e fiz uma aposta igual a essa. Joguei nos mesmos números, porque, na minha cabeça claro, minha brilhante ideia renderia boas risadas.
Levei os 2 papeizinhos (o resultado do sorteio e minha aposta) para a agência novamente. Ainda ninguém tinha dado as caras. Como sabia onde o pessoal guardava os papeis das apostas, coloquei o jogo que fiz no bolinho e deixei o papel do resultado à parte.
O pessoal foi chegando e quase ninguém se importou com os jogos. Da minha mesa, eu ficava observando tudo, até o Daniel começar a conferir. Como eu realmente queria deixa-lo feliz, coloquei a aposta que fiz naquele dia por último do bolinho, que deveria ter umas 40 apostas. Coitado, a cada volante que ele passava, eu notava a desolação dele. Foi quando ele chegou ao último papel. Já quase dormindo em cima do papel, vi-o riscando 1, 2, 3, 4, 5, 6 números. Ele deu um pulo e conferiu de novo. Esfregou os olhos e conferiu de novo. Estava ridículo, mas eu estava me divertindo. Deu um toque no o Rogério, para conferir também.
Ele olhou, conferiu e gritou:
- “ESTAMOS RICO”. Subiu na mesa, abaixou e começou a fazer girocóptero.
Isso gerou um burburinho em toda a agência e todo mundo veio ver o que estava acontecendo. Umas vinte pessoas faziam esse esquema de apostar conjuntamente. Oito delas, logo que souberam, não hesitaram: correram para o chefe e todas as atrocidades que lhes vinham à cabeça..
No meu canto, eu ria exageradamente. Todos parabenizando os ganhadores (leia-se: falsidade reinando, quero um pouco do seu dinheiro), com uns correndo pelados pela agência e outros sendo levados pela ambulância para o hospital devido às fortes dores no coração que sentiram com a notícia.
Como eu não conseguia parar de rir, uma vaquinha veio perguntar do que eu ria tanto. Eu disse:
- Esse jogo que ele conferiu, fiz hoje de manhã.
A vaca me fuzilou com os olhos e gritou:
- PAREM TUDO, ESSE JOGO FOI UMA MENTIRA. UMA BRINCADEIRA DE MAU GOSTO DO ESTAGIÁRIO!
Todos realmente pararam olhando para ela. Alguns com a feição de “quê?” e outros de “ela está brincando”. O que estava com o bilhete na mão, cujo nome desconheço, olhou o papel e viu que a data do jogo era de 27/03.
O silêncio estava absurdo e só eu continuava rindo. Ele só disse bem baixo:
- É…é de hoje.
Nesse momento, parei de rir, porque as expressões de felicidade mudaram para expressões de ‘vou te matar’. Corri… corri tanto que nem quando eu estive com a maior disenteria do mundo eu consegui chegar tão rápido ao banheiro. Tranquei-me por lá ao som de “estagiário safado”, “vou te matar”. Essa a última foi do peladão!
Eu realmente tinha conseguido o feito de deixar aquelas pessoas com corações vazios, cheios de nada, se sentirem feliz uma vez na vida. Deveriam me dar uma medalha por eu conseguir aquele feito inédito. Mas não… só tentaram me linchar e colocaram um carimbo gigante na minha carteira de trabalho de demissão por justa causa. Belos companheiros!
Pelo menos levei mais oito pessoas comigo! Quem manda serem mal educados com o chefe. Eu não tive culpa alguma na demissão deles. Pena que agora eles me juraram de morte… agora estou rindo de nervoso. Falei aqui em casa que fui demitido por corte de verba (consegui justificar dizendo que mandaram mais oito embora) e que as ligações que tenho recebido são meus amigos da faculdade passando trote. Eu supero isso vivendo, tenho certeza.
É, amigos, descobri com isso que não se pode brincar em serviço mesmo…